Uma Lembrança de Vida

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  • Era uma menina bonita, todos diziam ,tinha 11 anos.

    Deitada no sofá da casa simples, com os pés na parede, Vitty pela primeira vez pensou na sua existência.

    _ Nossa, só tenho 11 anos, é tão pouco tempo....Tenho tanto que viver ainda.....

    A CASA

    Era uma casa muito pequena, um quarto, a sala, a cozinha e o banheiro.... Ah, o banheiro...... Era fora da casa, um desconforto! Parecia que não combinava com ela....

    Sim, não era o seu lugar de verdade. Não sabia por que, mas ali não era o seu lugar!!

    Ficava abaixo do nível da rua, pintada na cor areia com as janelas em verde claro.

    Lembrava bem, quando após o almoço, ao levar o pai até o portão, sentaram sob a janela do quarto e sua mãe ensinou a jogar "bibeloque" que era feito com uma lata de extrato de tomate e um pedaço de barbante amarrado num pauzinho , então, jogava a latinha presa no barbante por um furo no fundo e "embocava" no pauzinho da outra ponta.

    Nos fundos, tinha um quintal com um gramado, onde sua mãe estendia a roupa lavada, e um poço que servia a casa vizinha também, que era separada por uma cerca de ripas.

    Um dia, sua irmã, brincando com um gato que andava pelo quintal, deixou o coitado cair dentro do poço, que já não era mais usado. Foi uma confusão até salvar o pobre animal!

    O gramado..... Colocava um caixote virado, entrava dentro e se imaginava no meio do mar, remando.....Era ali que virava cambalhotas, que brincava de rolar, ela, sua irmã e seus vizinhos.

    Ah! A goiabeira da casa da vizinha.... Adorava comer goiabas, subia na árvore e comia as frutas, às vezes até as verdes.

    Se estava sozinha, pegava uma bola amarela e a fazia passar no vão de uma calha da lateral da casa, ou então, usando as peças do jogo de bingo, ficava montando pirâmides.

    Num carnaval, com fantasia de baiana, ganhara de seu pai um frasco de lança-perfume. Era um liquido gelado que tinha um cheiro muito bom. A irmã sugeriu que perfumassem a boneca que ganhara no Natal e assim sendo, borrifou o lança-perfume no rosto da sua boneca. Que surpresa! O cheiro ficou ótimo, mas a boneca ficou com o rosto todo enrugado por causa do produto químico.

    Gostava de brincar na rua. A rua não tinha asfalto ainda.

    Um dia começou a passar o trator, as guias foram colocadas. Montes de pedras formavam morrinhos onde brincavam de subir e descer correndo. Colocaram o asfalto.

    Vitty observava tudo do muro da frente, a pá do trator nivelando a rua e espalhando as pedras, o rolo compressor compactando o asfalto.

    Com a rua asfaltada, brincava de amarelinha, boca do garrafão, pular corda, queimada, mãe da rua..... e tantas outras. Eram várias crianças que moravam naquela rua, e todas quase com a mesma idade, formavam um bom grupo.

    _ Vitty, já prá dentro! ( chamava sua mãe, já à noitinha)

    _ Já vou!!!!! ( mas não ia... queria brincar mais....)

    _Vitty!!! Eu vou te buscar!!!

    Então, ela passou correndo perto da mãe, fugindo, para se livrar de ser pega. Aí, veio o tombo, na descidinha que tinha para chegar na cozinha. Era feita com cimento crespo, para não escorregar nos dias que chovia. E assim, ralou todo o joelho. Como doía...., quase não sangrava, mas saía um liquido parecido com água.

    _ Tá vendo? Deus castiga quem não obedece !

    E a mãe fez o curativo. E a cicatriz ficou para sempre. Lembrança da sua infância.

     

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    A ESCOLA

    No dia que sua irmã, um ano mais velha, foi pela primeira vez à escola, Vitty estava ansiosa.

    O uniforme, uma saia pregueada de casimira azul marinho, camisa branca, gravata de fitinha azul, meias ¾ branca, sapato preto colegial de bico quadrado, a malinha de couro preta com um caderno, lápis, borracha.

    Era demais!! ela chegou correndo, trazida pelo pai. Que vontade de ter ido também !

    Enquanto esperava sua vez, sua mãe lhe ensinava as primeiras letras, assim a vontade de ir junto acalmava um pouco.

    Mas o dia chegou!

    Dona Sara, a professora do 1° ano primário.

    Curso Primário Anexo......que emoção! Ainda conseguiu estudar no colégio velho. Seis meses depois, em fila de dois, com a professora na frente, atravessaram o muro dos fundos e se instalaram numa sala novinha no 1° andar do colégio novo.

    Tinha facilidade de aprender, ficava sempre entre os melhores da classe.

    Gostava de conversar. Fez logo amizades.

    Um dia, enquanto esperava tocar o sinal para a saída, beliscou o braço da coleguinha, e a menina chorou! Foi só uma brincadeira ! Mas não adiantou.

    Dona Sara a deixou de castigo, junto com o aluno mais bagunceiro e repetente ainda por cima. Chorou muito, imaginando sua mãe lá fora, esperando por ela. Então o menino a consolou:

    _ Não chora não, você se acostuma, eu fico de castigo todos os dias...

    Mas foi só uma brincadeira!! Nunca mais brincou com essa coleguinha....

    Vitty estava no 2° ano escolar, tinha muitas amizades, gostou daquele menino pequeno e magrinho, era filho da Diretora, era uma gracinha, mas que decepção, ele gostou da melhor amiga dela.

    Desilusão que durou pouco, pois os outros meninos sempre queriam estar perto dela!

     

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    O PIANO

    Adorava cuidar das crianças das vizinhas, sentir o cheirinho gostoso que só os bebês têm.

    A vizinha da frente tinha filhos pequenos e ela tocava piano!

    Percebendo o interesse de Vitty, se prontificou a ensiná-la a tocar.

    Numa tarde, depois da aula, Vitty ficou assistindo televisão com as crianças.

    De repente, ele chegou. Era o irmão da professora, tinha 19 anos, estava servindo o exército. Vitty estava com 10 anos.

    Sentada no meio do sofá, ele sentou ao seu lado, e estendendo a mão, começou a mexer na barra do seu vestido. Ela se mexeu, estranhando, foi mais para o canto. Ele insistiu, chegando novamente perto dela. Não era possível!! O que ele estava querendo? Ela só tinha 10 anos !!

    Mesmo tão nova, ela percebeu as intenções dele! Levantou-se rapidamente, ele assustou, e ela discretamente se despediu da professora que estava preparando o jantar na cozinha e foi embora. Acontecera o primeiro assédio.

    A partir daquele dia, quando a aula de piano terminava, Vitty não ficava mais nem um pouquinho......

    Foram 3 anos de estudo, mas seu pai não conseguiu lhe dar um piano, era muito caro. Também, na sua casa nem tinha lugar para ele. Mas a paixão ficou.

     

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    A FAMILIA

    Como era gostoso brincar na casa dos avós ( Nonno e Nonna, como eram chamados, pois eram italianos).

    Os "buchinhos" podados por igual no jardim da frente da casa, eram uma atração, pois pareciam bancos convidando a sentar.

    _ Não vão "bulir" nos meus buchinhos! gritava o Nonno.

    Vitty , a irmã e os primos saíam correndo para não levar uma palmada.

    _ Não vão mexer na horta! repetia o Nonno

    A horta ficava num quintal nos fundos da casa. Cenoura, salsinha, couve....

    Que gostoso, tirar a cenoura da terra, lavar e comer! Pegar uma folha de couve, colocar sal, enrolar como um canudo e saborear, amarguinho mas gostoso...

    O pé de limão ficava sobre uma grama fofinha, as aranhas também gostavam dali, mas não tinha importância, subiam no pé, pegavam o limão, colocavam sal e chupavam.

    E o galinheiro! O que mais faziam era entrar no lugar onde ficavam os pintinhos. Era como uma caixa grande de madeira, tinham que ficar agachados lá dentro, mas não importava, era lá que decidiam do que iriam brincar. Nem se preocupavam se iriam pegar piolhos ou não.

    Era sempre uma festa na casa do Nonno, tios e tias, primos e primas, todos reunidos na mesa grande de madeira no galpão contínuo à casa.

    Na cozinha, junto ao fogão tradicional , havia um fogão a lenha onde tinha um cantinho que Vitty gostava de sentar para ver sua tia preparar o lanche da tarde.

    E a cama da tia, não tinha igual! O colchão era de pena, mais macio impossível, e era lá onde aconteciam as guerras de travesseiros!

     

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    A PRIMEIRA PERDA

    Foi num dia de carnaval, o Nonno que andava doente já há alguns meses veio a falecer.

    O velório foi na sala da casa. Com pano roxo cobrindo a porta

    Foi a primeira vez que alguém morria na família. Deixou um vazio enorme.

    E a lembrança do Nonno, sentado numa cadeira em frente ao rádio, cantando uma canção que falava de uma moça que tinha tranças e chorava pelo seu amor que tinha partido para a guerra.

    " Não vai bulir na horta!! ".

    Saudades....

    Seis meses depois, outro baque! Uma prima morria com 22 anos, de leucemia. Um enterro acompanhado por muita gente. Os carros se perdiam das vistas. Muito triste!

    E o vizinho, 33 anos, por causa de um jogo foi esfaqueado num bar perto da casa e morreu duas semanas depois, deixando 3 crianças órfãs.

    A vida estava se mostrando..... E as lembranças começaram a surgir....

     

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